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Por que o valuation de empresa em recuperação exige outro método?

Avaliar uma empresa em recuperação pelo múltiplo do setor produz um número que serve para muito pouco, comenta o executivo Pedro Daniel Magalhães, com atuação em reestruturação de dívidas e crédito estruturado. O múltiplo pressupõe continuidade, comparabilidade e passivo conhecido. Uma empresa em recuperação judicial tem os três pontos em aberto, porque o resultado recente está distorcido e a dívida segue em renegociação.

Valuation nessa situação responde a outra pergunta. Não interessa apenas quanto o negócio valeria em condição normal, e sim quanto ele vale sob um plano de pagamento ainda em discussão. O cálculo deixa de ser fotografia e passa a depender de cenário. Alterar em dois anos o prazo de pagamento muda o valor apurado sem alterar uma linha da operação.

O que o múltiplo de mercado deixa de enxergar?

Duas empresas do mesmo setor podem apresentar resultado operacional parecido, enquanto uma paga juro de mercado e a outra acumula dívida vencida sob proteção judicial. Comparação direta entre elas ignora o que separa as duas, frisa Pedro Magalhães, porque o passivo em disputa altera tanto o valor do negócio quanto a parcela que sobra para o sócio no fim da conta.

O desempenho recente também engana. Empresa em crise corta investimento, adia manutenção e perde fornecedor, o que reduz custo no curto prazo e cria margem artificial. Projetar o futuro a partir desse período exige reconstruir uma operação normalizada, com as despesas que voltarão a existir quando a atividade retomar o ritmo. Fornecedor que passou a exigir pagamento antecipado encarece a compra e reaparece na margem do período seguinte.

Dois valores que precisam ser calculados juntos

Avaliação em recuperação trabalha com duas medidas em paralelo, esclarece Pedro Daniel Magalhães. A primeira estima quanto o negócio gera em continuidade, com a operação preservada. A segunda estima quanto sobraria se os ativos fossem vendidos separadamente, em prazo curto e sem prêmio de negociação. Nenhuma das duas sozinha sustenta uma decisão, porque é a comparação entre elas que dá sentido ao número.

Pedro Daniel Magalhães
Pedro Daniel Magalhães

A comparação entre as duas medidas orienta a decisão do credor. Quando a continuidade vale mais que a liquidação, aceitar prazo e deságio tende a devolver mais dinheiro do que empurrar a empresa para a venda de ativos. Quando a conta se inverte, resistir ao plano passa a fazer sentido econômico, não apenas processual.

O plano de recuperação como variável do cálculo

Deságio, carência e prazo de pagamento mudam o caixa disponível ano a ano, o que Pedro Magalhães demonstra ao tratar a estrutura aprovada como parte do cálculo, não como consequência dele. Plano longo, com carência inicial, libera caixa para a operação respirar. Plano curto consome esse mesmo caixa em amortização e devolve a empresa à fila de crédito antes da hora.

A ordem de pagamento também importa. Credor com garantia real recebe em condição diferente do credor sem garantia, e o valor que cada classe enxerga no mesmo negócio muda conforme a posição que ocupa. Classe que recebe ao fim da fila desconta o valor pelo risco de não receber nada. Avaliação que ignora a estrutura do passivo chega a um número correto na média e equivocado para cada parte isoladamente.

O valor muda conforme quem faz a pergunta

O investidor interessado em unidade produtiva isolada avalia apenas o ativo que pretende comprar, livre de parte do passivo. Credor avalia a capacidade de pagamento do conjunto. Sócio original avalia o que resta depois de todas as obrigações. Três respostas diferentes para a mesma empresa, todas defensáveis dentro do próprio recorte. Unidade produtiva isolada vendida em processo judicial alcança preço distinto do que alcançaria em venda privada.

O valuation de uma empresa em recuperação raramente termina em um número único, ressalta Pedro Daniel Magalhães, porque entrega uma faixa e as condições que fazem o valor migrar de uma ponta à outra. Quem negocia com uma faixa na mão discute premissa. Quem chega com um número fechado discute preço e costuma perder o argumento antes de começar. Faixa bem construída mostra quais premissas precisam mudar para o valor subir.

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