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Seu metabolismo pode ter nascido antes de você: Lucas Peralles apresenta a epigenética nutricional transgeracional

Existe uma ideia que soa quase fantasiosa à primeira vista, mas que a ciência já trata com bastante seriedade: a alimentação de uma pessoa pode deixar marcas biológicas capazes de influenciar o metabolismo de seus filhos e até de seus netos, mesmo sem alterar uma única letra do código genético herdado. Lucas Peralles, nutricionista esportivo e especialista em comportamento alimentar, explica que esse campo, chamado epigenética nutricional, revela como o ambiente alimentar de uma geração pode reprogramar silenciosamente a fisiologia das gerações seguintes.

Tudo começou com o trabalho pioneiro do epidemiologista David Barker, que associou o baixo peso ao nascer a maior risco de doença metabólica e cardiovascular na vida adulta, dando origem ao que hoje se conhece como hipótese da programação fetal. Diante dessa descoberta, pesquisadores passaram a investigar quais mecanismos biológicos explicariam esse fenômeno, e a resposta encontrada envolveu justamente a forma como a nutrição durante a gestação altera marcas químicas no DNA, sem modificar sua sequência original.

Como a alimentação da mãe consegue reprogramar o metabolismo do filho antes mesmo do nascimento?

Estudos mostram que tanto a desnutrição quanto o excesso alimentar durante a gestação podem alterar processos como a metilação do DNA, mecanismo que regula quais genes ficam mais ou menos ativos ao longo da vida, sem alterar a informação genética propriamente dita. Pesquisas com modelos animais identificaram que dietas maternas desequilibradas modificam regiões específicas do genoma ligadas ao controle do apetite no hipotálamo, região cerebral responsável por regular fome e saciedade.

Esse mecanismo ajuda a entender por que filhos de mães com obesidade ou diabetes gestacional apresentam risco aumentado de desenvolver as mesmas condições metabólicas décadas depois, mesmo quando adotam hábitos alimentares aparentemente equilibrados na vida adulta. Na avaliação do fundador do Método LP, Lucas Peralles, essa descoberta reposiciona completamente a forma de pensar prevenção de doenças metabólicas, que deixa de começar apenas na infância ou adolescência para remontar ao próprio período gestacional.

Esse efeito realmente ultrapassa uma geração, alcançando netos e bisnetos?

Aqui está talvez o achado mais surpreendente dessa linha de pesquisa. Um estudo conduzido em uma comunidade isolada da Suécia, chamada Överkalix, utilizou registros históricos detalhados de disponibilidade de alimentos ao longo de gerações encontraram que avós que vivenciaram períodos de fartura alimentar durante a própria infância tiveram netos com maior risco de mortalidade cardiovascular, um efeito que parece ter sido transmitido especificamente pela linhagem paterna.

Lucas Peralles
Lucas Peralles

Esse tipo de achado sugere que a transmissão epigenética pode ocorrer através dos espermatozoides, carregando informações sobre o ambiente nutricional vivido por gerações anteriores. Tal como frisa Lucas Peralles, ainda existem desafios metodológicos importantes para confirmar esses efeitos transgeracionais de forma definitiva em humanos, já que separar influência genética, epigenética e ambiental ao longo de várias gerações é um desafio científico considerável, mas o conjunto de evidências acumuladas já é robusto o suficiente para levar o tema a sério.

Isso significa que o destino metabólico de alguém já está selado antes mesmo de nascer?

De forma alguma, e esse é um ponto que Lucas Peralles considera essencial esclarecer. Marcas epigenéticas, diferentes de mutações genéticas, são potencialmente reversíveis ao longo da vida, respondendo a fatores como alimentação, atividade física, sono e exposição a determinadas substâncias. Isso significa que uma predisposição herdada aumenta a probabilidade de determinados desfechos metabólicos, mas não determina um resultado inevitável e imutável.

Na avaliação do especialista em comportamento alimentar, essa compreensão traz uma mensagem dupla: por um lado, reforça a responsabilidade coletiva de cuidar da própria saúde metabólica, pensando também nas gerações futuras, especialmente durante a gestação; por outro, lembra que ninguém está condenado por uma herança epigenética desfavorável, já que hábitos de vida consistentes ao longo dos anos continuam sendo capazes de modular parte significativa desse legado biológico.

Como essa descoberta científica muda a forma de enxergar responsabilidade metabólica?

Reconhecer essa dimensão transgeracional da nutrição amplia o sentido de cuidar da própria alimentação, que passa a ser também um investimento na saúde de filhos e netos ainda por vir. Isso é particularmente relevante para mulheres em idade reprodutiva ou já gestantes, para quem a qualidade nutricional ganha um peso adicional que vai além da própria saúde individual.

Por fim, Lucas Peralles expressa que essa é uma das fronteiras mais fascinantes da nutrição contemporânea, unindo genética, comportamento e ciência do metabolismo em uma mesma narrativa. Assim, entender que a alimentação carrega um alcance biológico que ultrapassa a própria vida é um convite a tratar cada escolha alimentar com um pouco mais de profundidade do que apenas números na balança ou metas estéticas de curto prazo.

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