Governo prevê ampliar a telessaúde para toda a rede pública nos próximos quatro anos, mas acesso digital não substitui todo atendimento presencial.
O atendimento médico a distância pode deixar de ser uma alternativa concentrada em determinadas regiões e se tornar parte da rotina de praticamente toda a rede pública brasileira. O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, afirmou em 3 de setembro que o governo trabalha para levar a telessaúde a 100% das unidades do SUS nos próximos quatro anos. Segundo os dados apresentados, mais de 80% da rede já utiliza algum tipo de tecnologia de atendimento remoto, enquanto o Ministério da Saúde contabiliza mais de 12 milhões de teleatendimentos realizados diretamente pela Pasta em parceria com universidades. O cenário abre uma dúvida cada vez mais relevante para quem depende do sistema público: uma consulta por vídeo pode realmente substituir uma ida ao posto de saúde ou ao hospital? A resposta depende do tipo de problema, da necessidade de exame físico e da estrutura disponível para dar continuidade ao cuidado.
Como a telessaúde pode mudar o acesso ao SUS
A expansão da telessaúde tem potencial para reduzir uma das dificuldades históricas do sistema público: a distância entre pacientes e profissionais especializados. Em municípios pequenos, áreas rurais e regiões com menor concentração de médicos, uma consulta ou avaliação remota pode permitir que o paciente tenha contato inicial com um profissional sem precisar viajar imediatamente para outro município. O governo também informou que 84% das equipes de Saúde da Família já utilizam o prontuário eletrônico do Ministério da Saúde, criando uma infraestrutura digital que pode facilitar a integração entre atendimento presencial, teleatendimento e acompanhamento do paciente.
Esse avanço, entretanto, não significa que todas as consultas serão realizadas por computador ou celular. A telessaúde reúne diferentes modalidades, como teleconsulta, teleinterconsulta, telediagnóstico, telemonitoramento e teletriagem, e cada uma possui objetivos específicos. A Resolução CFM nº 2.314/2022 reconhece a telemedicina como modalidade válida de exercício médico, mas estabelece que o profissional deve avaliar se a tecnologia é adequada para cada situação e indicar atendimento presencial quando necessário. A norma também determina cuidados relacionados à segurança, privacidade, integridade dos dados e registro das informações no prontuário.
Para o paciente, o principal benefício potencial está menos na substituição da consulta presencial e mais na possibilidade de diminuir etapas desnecessárias. Uma avaliação remota pode, em determinadas situações, ajudar a orientar a necessidade de procurar uma unidade, acompanhar uma condição já conhecida, discutir resultados de exames ou permitir que profissionais de diferentes localidades troquem informações sobre um caso. Em regiões onde a oferta de especialistas é limitada, essa conexão pode ser especialmente importante para reduzir deslocamentos e acelerar encaminhamentos. O ganho, porém, depende da qualidade da conexão, da capacitação das equipes e da existência de uma rede presencial capaz de assumir o atendimento quando a tecnologia não for suficiente.
Quais consultas podem ser feitas a distância e quando o atendimento presencial continua essencial
A pergunta sobre o que pode ser resolvido por telemedicina não possui uma resposta única. Uma consulta de acompanhamento pode ter características muito diferentes de uma primeira avaliação de um paciente com sintomas novos, assim como o monitoramento de uma doença crônica não equivale a uma emergência médica. O próprio CFM determina que a autonomia do médico inclui decidir quando a telemedicina deve ser utilizada e quando o paciente precisa ser encaminhado para atendimento presencial. Em doenças crônicas ou situações que exigem acompanhamento prolongado, a resolução também estabelece a necessidade de consultas presenciais em intervalos específicos.
A infraestrutura tecnológica também é uma questão de segurança clínica. Uma plataforma de telemedicina precisa proteger dados de saúde, permitir registro adequado das informações e garantir comunicação suficientemente estável para o serviço oferecido. Na telecirurgia, por exemplo, os requisitos são ainda mais rigorosos: o CFM estabelece que o procedimento remoto deve utilizar tecnologias interativas seguras e infraestrutura adequada, além de equipe médica local e profissional responsável pela cirurgia remota. Isso mostra que o avanço da medicina digital não depende apenas de possuir internet, mas de construir uma cadeia tecnológica e assistencial capaz de funcionar com segurança.
O Brasil já começa a testar modelos mais avançados dessa transformação. Em junho de 2026, o SUS realizou uma cirurgia robótica a distância conectando Porto Velho, em Rondônia, a Barretos, em São Paulo, enquanto uma cirurgia posterior chamou atenção por conectar Brasil e China a aproximadamente 19 mil quilômetros de distância. Esses casos ainda representam aplicações altamente especializadas e não significam que cirurgias remotas estejam disponíveis de forma rotineira para a população. Eles, porém, demonstram como conectividade, robótica e telemedicina podem modificar a distribuição geográfica do conhecimento médico quando existem protocolos, infraestrutura e equipes qualificadas.
O desafio é garantir que a saúde digital não aumente a desigualdade
A promessa de telessaúde universal precisa ser acompanhada por uma discussão sobre inclusão digital. Ter uma unidade do SUS tecnicamente preparada para oferecer atendimento remoto não significa necessariamente que todos os pacientes conseguirão utilizar o serviço com a mesma facilidade. Pessoas sem internet adequada, equipamentos compatíveis, familiaridade com ferramentas digitais ou condições de acessibilidade podem enfrentar obstáculos adicionais, especialmente idosos e grupos socialmente vulneráveis. Por isso, a expansão da tecnologia precisa preservar alternativas presenciais e considerar as diferentes realidades dos usuários.
Outro ponto fundamental é a proteção das informações clínicas. Prontuários eletrônicos, imagens de exames, históricos de doenças e dados produzidos durante teleconsultas são informações sensíveis e precisam ser tratados de acordo com regras de segurança e privacidade. O CFM determina que dados e imagens utilizados na telemedicina sejam preservados com confidencialidade e integridade, enquanto a estrutura de saúde digital brasileira busca ampliar a interoperabilidade entre sistemas. O objetivo não deve ser simplesmente acumular dados, mas permitir que informações corretas cheguem ao profissional autorizado no momento adequado, sem comprometer a privacidade do paciente.
Se a meta anunciada pelo Ministério da Saúde for alcançada, a telessaúde poderá se tornar uma das principais ferramentas de modernização do SUS nos próximos anos. O potencial é grande: mais acesso a especialistas, acompanhamento remoto, integração entre serviços e redução de deslocamentos podem beneficiar milhões de brasileiros. Mas a tecnologia só produzirá melhores resultados se estiver associada a profissionais capacitados, infraestrutura adequada, proteção de dados e atendimento presencial disponível quando necessário. Para o paciente, a orientação continua sendo procurar avaliação de um profissional de saúde diante de sintomas ou dúvidas clínicas, sem utilizar uma ferramenta digital como substituta automática do cuidado médico presencial.



