Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, médico radiologista e ex-secretário de Saúde, frisa que a mamografia é considerada a principal estratégia para detectar precocemente o câncer de mama, doença que continua entre as maiores causas de morte por câncer na população feminina brasileira. Nas últimas décadas, o país ampliou a oferta de equipamentos, consolidou políticas de rastreamento e incorporou novas tecnologias ao diagnóstico por imagem. Ainda assim, milhares de mulheres continuam recebendo o diagnóstico quando a doença já está em estágios avançados, reduzindo as chances de tratamento menos agressivo e de melhores desfechos clínicos.
Esse cenário revela que ampliar o acesso à mamografia é apenas parte da solução. O verdadeiro desafio é construir uma linha de cuidado eficiente, capaz de garantir que a paciente realize o exame no momento adequado, receba um laudo de qualidade e, caso seja encontrada alguma alteração, tenha acesso rápido aos exames complementares e ao tratamento. Entender por que essa cadeia ainda apresenta falhas é essencial para discutir o futuro da prevenção no Brasil.
Ter um mamógrafo disponível significa que a população está realmente protegida?
Quando se fala em acesso à mamografia, é comum imaginar que o principal indicador seja a quantidade de equipamentos disponíveis. No entanto, Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues ressalta que esse dado, isoladamente, pouco revela sobre a efetividade do rastreamento. A distribuição desigual dos aparelhos entre estados e municípios, dificuldades de deslocamento, filas para agendamento e diferenças na capacidade de atendimento fazem com que muitas mulheres permaneçam distantes do exame, mesmo vivendo em regiões onde há mamógrafos instalados.
Os dados do DATASUS, do Instituto Nacional de Câncer (INCA) e do Ministério da Saúde mostram que a cobertura do rastreamento ainda varia significativamente entre as regiões brasileiras. Enquanto alguns centros urbanos conseguem manter programas relativamente organizados, localidades mais afastadas enfrentam limitações estruturais e escassez de profissionais especializados. O resultado é um cenário em que o endereço da paciente pode influenciar diretamente a oportunidade de um diagnóstico precoce.
Por que tantas mulheres ainda descobrem o câncer em estágios avançados?
O diagnóstico tardio raramente acontece por um único motivo. Em muitos casos, ele resulta da soma de diversos obstáculos ao longo da jornada da paciente. O atraso pode começar na dificuldade para marcar a mamografia, continuar na espera pela realização do exame, prolongar-se até a emissão do laudo e aumentar ainda mais, caso sejam necessários exames complementares, como ultrassonografia, ressonância magnética ou biópsia.
Dr. Vinicius Rodrigues nota que outro desafio importante é a baixa adesão ao rastreamento em parte da população. Medo do diagnóstico, falta de informação, dificuldade de acesso aos serviços de saúde e desconhecimento das recomendações médicas fazem com que muitas mulheres deixem de realizar a mamografia periodicamente. Quando os primeiros sintomas aparecem, o câncer frequentemente já apresenta maior extensão, exigindo tratamentos mais complexos e reduzindo as possibilidades de terapias conservadoras.

O que os dados revelam sobre as desigualdades no acesso à mamografia?
Relatórios da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram que programas organizados de rastreamento, quando aliados à alta cobertura populacional e ao tratamento oportuno, estão associados à redução da mortalidade por câncer de mama. Entretanto, oferecer exames sem garantir qualidade, continuidade do cuidado e acompanhamento das pacientes produz resultados limitados.
Conforme observa o Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, o Brasil convive com desigualdades que vão além da disponibilidade de equipamentos. Existem diferenças importantes na qualidade das imagens, na capacitação das equipes, na padronização dos laudos e na velocidade de encaminhamento para centros especializados. Em outras palavras, duas mulheres com características semelhantes podem ter trajetórias completamente diferentes dentro do sistema de saúde simplesmente por viverem em regiões distintas.
Como transformar acesso em diagnóstico precoce?
Nos últimos anos, diversos países passaram a investir não apenas na ampliação da oferta de mamografias, mas na organização de programas capazes de acompanhar toda a jornada da paciente. Convites ativos para o rastreamento, sistemas informatizados de acompanhamento, controle de qualidade dos exames e integração entre atenção primária, diagnóstico e tratamento têm contribuído para aumentar a eficiência dessas estratégias.
Segundo o Dr. Vinicius Rodrigues, o Brasil também avança nesse caminho ao incorporar soluções digitais, inteligência artificial para apoio ao diagnóstico e protocolos cada vez mais padronizados. Contudo, essas inovações só produzirão impacto significativo se vierem acompanhadas de investimentos em infraestrutura, formação de profissionais e redução das desigualdades regionais. A tecnologia, por si só, não resolve gargalos relacionados à organização dos serviços de saúde.
O maior desafio é garantir uma jornada completa de cuidado
Quando o debate se limita ao número de mamografias realizadas, parte importante da discussão fica de fora. O sucesso da prevenção depende de uma sequência de etapas que começa na conscientização da população, passa pelo acesso oportuno ao exame, pela qualidade da interpretação das imagens e termina no tratamento iniciado em tempo adequado. Se qualquer um desses elos falhar, o benefício do rastreamento diminui.
Para o Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, fortalecer o acesso à mamografia significa construir um sistema capaz de oferecer cuidado contínuo, seguro e baseado em evidências. Mais do que ampliar estatísticas de exames realizados, o objetivo deve ser garantir que cada mulher tenha a oportunidade de descobrir a doença em sua fase inicial, quando as chances de sucesso terapêutico são significativamente maiores. Esse é o caminho para transformar avanços tecnológicos e políticas públicas em resultados concretos para a saúde da população.



