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Brasil registra menor número de casos de malária em quase 50 anos, mas desafio continua na Amazônia

Queda de casos e mortes mostra avanço no controle da doença, enquanto novas estratégias no SUS ampliam a proteção de populações vulneráveis.

O Brasil alcançou em 2025 o menor número de casos de malária desde 1978, segundo dados apresentados nesta semana durante o Congresso da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical. Foram registrados 118.037 casos, uma redução de 14,8% em relação a 2024, enquanto as mortes caíram de 56 para 39, queda de aproximadamente 30%. O resultado chama atenção porque a doença continua concentrada principalmente na Amazônia brasileira, onde vivem populações indígenas, ribeirinhas e comunidades que enfrentam dificuldades de acesso aos serviços de saúde. (Folha de S.Paulo)

O avanço está relacionado a uma combinação de diagnóstico, tratamento e estratégias para evitar as recaídas provocadas principalmente pelo Plasmodium vivax. Entre as medidas está a ampliação do uso da tafenoquina no Sistema Único de Saúde, inclusive com formulação pediátrica disponibilizada neste ano. O cenário, porém, não significa que a malária deixou de ser uma ameaça. Para a população que vive ou viaja para áreas de transmissão, entender os sintomas, o diagnóstico e as formas de prevenção continua sendo fundamental.

Por que os casos de malária estão caindo no Brasil?

A redução registrada em 2025 representa um avanço importante no controle da malária, mas não ocorreu por uma única razão. O enfrentamento da doença depende de uma rede que envolve diagnóstico rápido, tratamento adequado, vigilância epidemiológica, controle da transmissão e acompanhamento das pessoas infectadas. De acordo com o Ministério da Saúde, mais de 99% dos casos autóctones brasileiros estão concentrados na região amazônica, que inclui Acre, Amazonas, Amapá, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins, Mato Grosso e Maranhão. (Serviços e Informações do Brasil)

Uma das mudanças relevantes foi a ampliação das estratégias para combater as recaídas da malária causada pelo Plasmodium vivax. A tafenoquina, incorporada ao SUS sob condições específicas, atua sobre formas do parasita que permanecem no fígado e podem provocar novos episódios da doença. Em 2025, o Ministério da Saúde registrou a redução dos casos e mortes, enquanto a utilização da terapia avançou em áreas prioritárias. Até junho de 2026, mais de 33,7 mil pessoas haviam recebido o tratamento, segundo dados apresentados no congresso médico. (Folha de S.Paulo)

Outro fator relevante foi a expansão do acesso ao tratamento para crianças. Desde março de 2026, o SUS passou a disponibilizar uma apresentação pediátrica da tafenoquina, voltada a crianças e adolescentes dentro dos critérios estabelecidos pelo Ministério da Saúde. A estratégia começou justamente em áreas amazônicas de maior incidência, incluindo territórios indígenas e regiões com dificuldades logísticas. O objetivo é reduzir recaídas e ampliar a efetividade do tratamento, mas a medicação exige avaliação da atividade da enzima G6PD antes da administração, justamente para evitar complicações hematológicas. (Serviços e Informações do Brasil)

O que a tafenoquina muda no tratamento da malária?

A principal diferença da tafenoquina está na possibilidade de utilizar uma dose única para a chamada cura radical da malária por Plasmodium vivax, associada à cloroquina nos casos indicados. Isso pode facilitar a adesão ao tratamento quando comparado a esquemas que exigem vários dias de medicamentos. A vantagem é particularmente relevante em localidades onde o acompanhamento contínuo do paciente pode ser difícil, como áreas rurais, ribeirinhas e territórios indígenas. A Organização Mundial da Saúde reconhece a tafenoquina como alternativa à primaquina em determinadas situações na América do Sul, desde que sejam observados critérios de segurança. (Iris)

Entretanto, a novidade não significa que qualquer pessoa com malária possa tomar tafenoquina por conta própria. Antes do uso é necessária a avaliação da atividade da G6PD, uma enzima relacionada à proteção das células vermelhas do sangue. Pessoas com baixa atividade dessa enzima podem apresentar hemólise, uma destruição acelerada das hemácias, quando expostas a determinados medicamentos. O Ministério da Saúde estabelece critérios específicos para o uso da tafenoquina e orienta que a decisão terapêutica seja feita pelos profissionais responsáveis pelo atendimento. (Serviços e Informações do Brasil)

A expansão da estratégia também tem importância para a saúde indígena. Dados divulgados pelo Ministério da Saúde apontam queda de 70% nas mortes por malária no território Yanomami entre 2023 e 2025. A oferta da formulação pediátrica foi direcionada inicialmente a áreas como os Distritos Sanitários Especiais Indígenas Yanomami, Alto Rio Negro, Rio Tapajós, Vale do Javari e Médio Rio Solimões e Afluentes. Nessas localidades, combinar medicamento, diagnóstico e capacitação de profissionais é essencial porque as barreiras geográficas podem atrasar tanto a identificação quanto o tratamento dos casos. (Serviços e Informações do Brasil)

Como identificar a malária e quando procurar atendimento?

A malária pode provocar sintomas que, no início, são confundidos com outras doenças infecciosas. Febre, calafrios, sudorese, dor de cabeça, fraqueza, náuseas e mal-estar estão entre as manifestações possíveis. Em determinadas infecções, os sintomas podem aparecer em ciclos, mas esse padrão não deve ser utilizado pela pessoa para tentar confirmar a doença em casa. Como diferentes enfermidades podem apresentar sinais semelhantes, a confirmação depende de avaliação dos serviços de saúde e de exames específicos.

A suspeita merece atenção especialmente quando existe histórico recente de permanência em área de transmissão. A região amazônica concentra a grande maioria dos casos brasileiros, e o Ministério da Saúde mantém mapas de risco atualizados por município para orientar a vigilância epidemiológica. Pessoas que apresentarem febre ou outros sintomas compatíveis depois de permanecer em uma área de risco devem informar ao profissional de saúde onde estiveram e quando ocorreu a exposição. (Serviços e Informações do Brasil)

A prevenção também continua importante, principalmente para moradores e visitantes de áreas onde existe transmissão. Medidas para reduzir o contato com mosquitos, como utilizar repelentes, roupas que protejam braços e pernas e barreiras físicas adequadas, podem ajudar a diminuir a exposição. O cuidado deve ser reforçado em locais onde a presença do vetor é maior, especialmente durante períodos e horários de maior atividade dos mosquitos. A prevenção individual, porém, precisa estar associada às ações de vigilância e controle realizadas pelas autoridades de saúde.

Para quem suspeita de malária, a orientação não é buscar medicamentos por conta própria nem interromper um tratamento sem avaliação profissional. O diagnóstico precoce e a escolha correta do tratamento são fundamentais para evitar agravamentos, transmissão e novos episódios da doença. Pessoas com febre após viagem ou permanência em área de risco devem procurar um serviço de saúde e relatar a possível exposição. A definição do tratamento depende da espécie do parasita, da condição clínica e de características individuais do paciente.

O cenário brasileiro aponta uma tendência positiva, mas ainda exige vigilância permanente. A queda histórica de casos e mortes mostra que políticas públicas combinando diagnóstico, tratamento e prevenção podem produzir resultados expressivos, especialmente na Amazônia. Ao mesmo tempo, a concentração da doença em territórios remotos mantém desafios relacionados ao acesso, transporte, infraestrutura e continuidade do atendimento. A expansão da tafenoquina pediátrica e da testagem para G6PD deve ampliar as ferramentas disponíveis ao SUS, enquanto o acompanhamento epidemiológico será decisivo para identificar onde ainda existem focos de transmissão. Para a população, a principal mensagem é que a malária continua sendo uma doença que exige diagnóstico e tratamento médico, mesmo diante dos avanços recentes.

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